Os efeitos positivos da Diplomacia Pública na administração Obama ]

Inúmeros fatores conduziram a uma animosidade de outros países em relação aos Estados Unidos da América (EUA). Suas investidas no Iraque foram preponderantes para o surgimento do cenário negativo atual.

A crise de imagem enfrentada pelos EUA, nos últimos anos, é evidente e pode ser constatada em vários jornais do mundo. Se por um lado houve uma imediata demonstração de apoio, empatia e comoção pela comunidade internacional, após os ataques de 11/9, com manifestação de líderes dos quatro cantos do globo, incluindo Rússia, Cuba e China, condenando os ataques terroristas.

Do outro, as investidas no Iraque, na era Bush, concorreram, dentre várias outras razões, para que fosse formada (ou intensificada) uma imagem de arrogância depondo fortemente contra os EUA. Talvez Bush tenha interpretado (ou se equivocado [misperception (JERVIS, 1976)]) – de maneira mais favorável às suas convicções e interesses -, a regra mais sábia regra do estadismo “Qui desiderat pacem, praeparet bellum” (Aquele que deseja a paz, que prepare a guerra [tradução nossa]) (VEGETIUS séc. 4 AD apud WILKINSON, 2007).

Talvez, ao contrário do que havia imaginado, essas incursões foram consideradas por muitos como preventive war, por várias razões, a começar por estarem (os EUA) violando várias disposições da Carta das Nações Unidas, como por exemplo, o Artigo 2, Seção 4, do Capitulo 1, in verbis “All Members shall refrain in their international relations from the threat or use of force against the territorial integrity or political independence of any state […]”

Resta-me clara, ao menos, a inclinação realista de Bush face à atuação evidenciada durante sua administração à frente da Casa Branca. Assim, “To most scholars in international politics, to think like a Realist is to think as the philosophical historian Thucidides first thought” (DOYLE, 1997).

Tal como ocorrido, de forma análoga, na grande Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, “Efforts of each side to protect its security made the other side insecure” (DOYLE, op. cit.).

Podemos entender e estender, assim, a expressão “the other side” não apenas como sendo o Iraque, mas toda a comunidade internacional.

De igual forma, como “a praga erodiu a confiança do povo [ateniense]” (DOYLE, op. cit.), os ataques norte-americanos contra o Iraque, aliados à política externa de Bush, concorreram para uma “erosão” da confiança internacional.

Assim, Barack Obama, claramente um liberal (o oposto de seu antecessor), assume a presidência dos EUA com desafios de toda a sorte. Nas palavras de (LOBO-FERNANDES, 2009), “Barack Obama assumiu a presidência num ciclo de ceptismo crescente e com a América mais fragilizada. Considero mesmo que os Estados Unidos estão mergulhados na pior crise de confiança da sua história”.

A expectativa por mudanças é alta não apenas no âmbito interno, mas em toda a comunidade internacional. Reerguer a imagem daquele país é, talvez, o desafio menos difícil, porém imperativo.

Joseph S. Nye Jr. já afirmara, em 2005, que a política na era da informação não é apenas uma questão de exército vencedor, mas sim de qual história foi mais bem contada (NYE, 2005). Segundo ele, ainda, “power is the ability to affect others to obtain the outcomes you want” (NYE, 2008).

Diplomacia Pública (DP) “tradicionalmente significa comunicação governamental focada no público estrangeiro para conseguir mudanças nos ‘corações e mentes’ das pessoas” (SZONDI, 2008).

Jan Melissen, diretor do Clingendael Diplomatic Studies Programme, afirma que a DP pode ser vista como uma “instrumentalização do soft power” (MELISSEN, 2008), esta última definida por Nye (NYE, 2008, op. cit.) como a atração exercida pela cultura, ideais políticos e políticas externas de um país.

Diplomacia Pública tem a ver com relacionamentos, comunicação para construir confiança, credibilidade e, nesse sentido, a DP como reflexo/ferramenta de soft power, possui, no governo Obama, função basilar para a retomada de uma imagem pública positiva dos EUA, uma vez que, diferentemente da Diplomacia tradicional (que possui seu foco ativo nas relações Governo-Governo), busca o apoio de e relaciona-se não apenas com os Governos, mas tem seu foco alargado para as relações entre non-state actors (ONGs, sociedade civil, empresas multinacionais, mídia, etc).

Ademais, vários outros fenômenos contemporâneos forçam um repensar por parte dos Estados em relação às suas atividades no cenário internacional, como por exemplo, a revolução das comunicações e o aumento dos problemas transnacionais, para citar apenas dois.

Essa é a oportunidade, o timing perfeito para transformar – dramaticamente – a imagem dos EUA. Tanto o é, que sob a égide do Departamento de Estado, encontra-se a Subsecretaria de Estado para Diplomacia Pública e Assuntos Públicos. Atualmente responde pelo Órgão Judith A. McHale, oriunda de grandes redes de televisão, como Discovery Communications e MTV Networks.

Esse Órgão é responsável por liderar os esforços da Diplomacia Pública norte-americana no estrangeiro, incluindo toda a comunicação com audiências internacionais, programação cultural, bolsas acadêmicas, programas e intercâmbio, programas de visitação internacional e, sobretudo, o esforço do Governo para enfrentar o apoio ideológico ao terrorismo.

Ainda vinculado à Subsecretaria, encontra-se a Agência de Política e Recursos para Diplomacia Pública e Assuntos Políticos, responsável pelo planejamento estratégico de longo prazo e medição de desempenho da Diplomacia Pública e dos programas de relações públicas.

Adicionalmente, face à importância dada pela atual administração ao tema, foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado americano, em Setembro de 2009, o Projeto de Lei (Bill HR2131) que pretendia alterar a Lei de Reforma e Reestruturação da Política Externa de 1998, para reautorizar o funcionamento da Comissão Consultiva de Diplomacia Pública dos Estados Unidos. O presidente Obama sancionou o Projeto em 10 de Outubro, transformando-o na Lei Pública No. 111-070. Essa Comissão é um painel bipartidário criado pelo Congresso. Seus membros são nomeados pelo presidente para avaliar as atividades do Governo que objetivam compreender, informar e influenciar o público estrangeiro.

Essas ações corroboram as palavras da atual Secretária de Estado dos EUA, senadora Hillary Clinton, que jurou restaurar a liderança dos Estados Unidos por meio da “smart power”, durante seu pronunciamento em audiência no Senado americano, em Janeiro de 2009 (CLINTON, 2009).

Com efeito, se pensarmos a DP como um trinómio: (i) Identidade, (ii) Imagem e (iii) Comunicação, onde Identidade significa como o pais realmente é; Imagem relacionando-se à percepção que os outros (povos, países, non-state actors) possuem de um Estado e Comunicação relativo aos meios pelos quais a Identidade é transformada em Imagem, poderemos perceber os esforços do novo commander in chief norte-americano em reerguer a imagem dos EUA, utilizando-se da Diplomacia Pública.

Na prática, a DP utiliza a seu favor e a favor do Estado de origem, conceitos não apenas das Relações Internacionais [diplomacia tradicional, soft power, etc.], mas também de conceitos oriundos da sociologia, antropologia e do marketing/comunicação, tendo como vantagem comparativa, a possibilidade de “chegar onde a diplomacia tradicional não consegue alcançar” (MELISSEN, 2005). Não se pode, contudo, confudir ação de DP com propaganda.

Em um esforço estratégico integrado de DP – que usa e abusa das chamadas “novas tecnologias” e que objetiva dar visibilidade às ações governamentais dos EUA -, vários canais de comunicação passaram a ser utilizados para transmitir as ações da (nova) política externa americana.

A página oficial da Casa Branca apresenta, esporadicamente, uma chamada para o link Your Weekly Address, [Seu pronunciamento semanal]. Nele poderão ser encontrados os pronunciamentos do presidente Obama, divididos por categorias, inclusive, além de outros links para os vários Blogs criados.

Uma rápida busca pelo nome The White House no Youtube nos leva à página oficial da Casa Branca naquele canal, onde são publicados vídeos com pronunciamentos e entrevistas do presidente Obama. Igualmente, se assim procedermos no Flickr.

Outras redes sociais também estão sendo utilizadas, tais como: twitter, Facebook, MySpace, LinkedIn, Vimeo e o próprio iTunes, onde estão publicados vídeos e podcasts. Essa diversidade proporciona a inclusão de um público mais jovem nas discussões e na compreensão da mensagem enviada pelo Governo. Um “nicho” da população que está cada vez mais atento, desejoso e ansioso por informações e, sobretudo, por ser ouvido, uma vez que “a nova concepção de diplomacia pública assume que a audiência doméstica tem voz no diálogo da política externa” (MELISSEN e GONESH, op. cit.).

Consequência tangível dessas e de outras ações tomadas pela atual administração, pode ser percebida em recente pesquisa realizada pelo German Marshall Fund, indicando que a opinião positiva em relação aos EUA tem aumentado vertiginosamente na Europa. Três em cada quatro respondentes (77%) na União Europeia e Turkia afirmaram apoiar a forma como presidente Obama tem tratado as questões de política externa, em comparação aos 19% (apenas um em cada cinco) que aprovava as políticas externas do então presidente Bush in 2008.

De igual forma, outra pesquisa realizada pelo Pew Research Center, no âmbito do The Pew Global  Attitudes Project demonstra que a aprovação em relação aos EUA saltou para 75% na Fraca e 69% na Inglaterra, comparativamente em relação à administração Bush, quando obteve 63% e 75%, respectivamente, durante o seu segundo mandato.

Ademais, identificou-se, ainda, uma reversão positiva na atitude dos europeus em relação a uma maior parceria diplomática com os EUA. Em 2009, 42% dos respondentes afirmaram apoiar o estreitamento de laços diplomáticos contra 33% em 2008. Um ano anterior, o cenário ainda mais evidente, todavia em sentido contrario, pois 48% dos europeus afirmaram, em 2007, que desejavam uma maior independência dos Estados Unidos.

Decerto que a Diplomacia Pública tem sido uma prioridade na administração Obama, no que diz respeito à formação e implementação de sua política externa. Prova adicional disso é o orçamento de 11.456 bilhões de dólares (WOODROW, 2009). Uma parte significativa dessa quantia será distribuída em várias iniciativas de DP, tais como programas de intercâmbio e desenvolvimento de tecnologia de informação.

Mesmo com as estatísticas apresentadas, não é possível (quiçá prudente) afirmar que o apenas uso da Diplomacia Pública é suficiente para reerguer a imagem dos Estados Unidos. Decerto é necessário fazer ainda mais. É possível pensar em uma integração das embaixadas e consulados em um esforço coordenado, mudando a forma de atuação das representações no exterior, tornando-as mais ativas e proativas e mais próximas dos atores não estaduais.

Da mesma forma, as políticas de visto devem ser reapreciadas, mormente para os países em desenvolvimento, bem como o tema imigração, por muitas vezes controverso e tido como um tabu, por exemplo. Esses temas afetam, diretamente, a imagem de qualquer Estado.

Outrossim, a DP deve ajudar a moldar as políticas que realmente considerem  as ideias e interesses comuns, indo ao encontro do aqui apresentado trinômio da Diplomacia Pública. Comunicar, por comunicar, não é suficiente. A mensagem externa deve ser consistente com as ações internas do Estado.

O passado sugere que existe, possivelmente, apenas um caminho seguro para que o presidente Obama assegure sua popularidade e dos EUA no exterior: investir em soft power, com o auxílio de uma comunicação estratégica. Juntas, essas duas ferramentas tornam-se a linha de frente da chamada “guerra das ideias”, na era da informação, corroborando e reforçando a assertiva inicial de Nye, quando afirma que a política na era da informação não é apenas uma questão de exército vencedor, mas sim de qual história foi mais bem contada.

Após quase um ano de administração, a Diplomacia Pública de Obama tem sido vencedora na conquista de uma melhor imagem dos Estados Unidos perante a comunidade internacional, mas até quando?

 

REFERÊNCIAS

CLINTON, H. R. In. Statement of Senator Hillary Rodham Clinton, Nominee for Secretary of State. Foreign Relations Committee, US Snate. United States, 2009. Disponível em: http://foreign.senate.gov/testimony/2009/ClintonTestimony090113a.pdf. Acesso em: 27 dez 2009.

DOYLE, Michael W. In Ways of War and Peace: Realism, Liberalism, and Socialism. New York/London, 1997. p. 49.

JERVIS, Robert. Perception and Misperception in International Politics. New Jersey: Princeton University Press, 1976.

KEY FINDINGS 2009. Relatório. Estados Unidos, 2009. Disponível em: http://www.gmfus.org/trends/2009/docs/2009_English_Key.pdf. Acesso em 27 dez 2009.

LOBO-FERNANDES, Luís Filipe. In Mestrado em Relações Internacionais: Análise das Relações Internacionais: Debates Contemporâneos, 7 de nov. de 2009. 2 f. Notas de Aula. Mimeografado.

MELISSEN, J., Korea Needs Public Diplomacy Strategy: depoimento. [13 de fevereiro de 2008]. Korea: The Korea Times. Entrevista concedida à Redação. Disponível em: http://www.koreatimes.co.kr/www/news/special/2009/11/178_18885.html. Acesso em 23 dezembro 2009.

______. GONESH, Ashvin. Public Diplomacy: Improving Pratice. 2005. p. 5. [tradução nossa].

NYE JR, Joseph S., 2005. Politics in an information age is not only about whose military wins but whose story wins. In Boston Review. http://bostonreview.net/BR30.1/nye.php. 2005. [tradução nossa].

______., Public Diplomacy and Soft Power. In The ANNALS of the American Academy of Political and Social Science: 2008. 616; p. 94-95.

Pakistan Public Opinion Survey. IRI. http://www.iri.org/mena/pakistan/pdfs/2007-12-12-pakistan-poll.pdf. 2007.

Poll: Israel, Iran, U.S. have most negative image. MSNBC. http://www.msnbc.msn.com/id/17474900. 2007.

Poll: U.S. image improves but still negative overall. CNN. http://www.cnn.com/2008/POLITICS/06/13/us.poll/. 2008.

SZONDI, Gyorgy., In Public Diplomacy and Nation Branding:Conceptual Similarities and Differences. 2008. p. 6. [tradução nossa].

THE PEW GLOBAL ATTITUDES PROJECT. Relatório. Estados Unidos, 2009. Disponível em: http://pewglobal.org/reports/display.php?ReportID=264. Acesso em: 27 dez 2009.

WILKINSON, Paul. In International Relations: a very short introduction. New York: Oxford University Press, 2007.

WOODROW, Art. Let’s Get Real. Blog. Disponível em: http://www.bloggernews.net/122401. Acesso em: 28 dez 2009.

Advertisements

Entre em contato!

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s